O Dia Mundial de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas é lembrado nesta quinta-feira (30) e chama atenção para um crime que viola direitos humanos e pode envolver diferentes formas de exploração, como sexual, trabalho forçado e situações análogas à escravidão. No Brasil, a data também integra as ações nacionais de conscientização, prevenção e enfrentamento ao tráfico de pessoas.
Em Roraima, o tema ganha atenção especial devido à localização do Estado, que faz fronteira com a Venezuela e a Guiana e recebe um fluxo intenso de pessoas. A condição de fronteira, associada a situações de vulnerabilidade social e econômica, pode facilitar a ação de pessoas que se aproveitam da fragilidade das vítimas para realizar o aliciamento.
Casos registrados recentemente mostram que o problema está presente no Estado. Em junho deste ano, uma operação da Polícia Rodoviária Federal (PRF), realizada na BR-401, no município do Cantá, resultou no resgate de 108 cidadãos cubanos identificados como vítimas de tráfico humano.
Durante a ação, cinco pessoas foram presas em flagrante, suspeitas de atuar como coiotes, termo utilizado para identificar pessoas que auxiliam de forma ilegal a entrada ou deslocamento de migrantes, podendo estar associadas a redes de exploração e tráfico.
Segundo a PRF, essa foi a maior ocorrência de resgate humanitário de imigrantes registrada em uma única ação em Roraima. Com o caso, chegou a 297 o número de estrangeiros, principalmente cubanos, resgatados pela instituição no Estado entre 2024 e 2026.
Aliciamento pode começar com falsas promessas
O tráfico de pessoas pode começar com uma proposta aparentemente vantajosa. Falsas ofertas de emprego, promessas de melhores condições de vida, viagens ou salários altos podem ser utilizadas para convencer a vítima a deixar a cidade onde vive ou até mesmo o país.
A diretora do Programa de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa de Roraima, Socorro Santos, que atua na área de proteção e defesa dos direitos humanos e acompanha situações de vulnerabilidade, explica que as mulheres estão entre as principais vítimas do tráfico de pessoas.
“Dentro dessa dinâmica vai se fazendo a conquista das pessoas vulneráveis. Então, muitas meninas que nós atendemos de 2000 para cá, elas foram conquistadas, elas foram aliciadas pela rede, a rede da internet.”
A internet pode ser utilizada como ferramenta de aproximação entre aliciadores e pessoas em situação de vulnerabilidade. O contato pode começar por meio de propostas que aparentam ser legítimas, mas que posteriormente podem resultar em diferentes formas de exploração.
Mulheres estão entre as principais vítimas
A relação entre migração, fronteiras, vulnerabilidade e tráfico de pessoas também é estudada no meio acadêmico. Pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal de Roraima (UFRR) analisam o fenômeno e seus impactos na região amazônica.
A professora da instituição, Márcia Maria, pesquisadora de questões relacionadas às fronteiras e aos processos migratórios, compartilha dados identificados pelo Grupo de Estudos Interdisciplinares em Fronteiras (GEIFROM), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Fronteiras.
“De acordo com as nossas pesquisas realizadas no GEIFROM, o Grupo de Estudos Interdisciplinares em Fronteiras, da Universidade Federal de Roraima, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Fronteiras, as principais vítimas do tráfico humano ainda são as mulheres. Entre as migrantes, elas representam 53% da população traficada e entre as não-migrantes chega a 73% da população traficada.”
Crime pode ocorrer sem violência física
O tráfico de pessoas pode ocorrer de diferentes formas e nem sempre envolve violência física ou privação imediata da liberdade. Em muitos casos, a vítima é convencida a aceitar uma oportunidade que parece legítima e só depois percebe que está sendo explorada.
Por isso, a informação é considerada uma das principais ferramentas de prevenção. Conhecer os possíveis métodos utilizados pelos aliciadores pode ajudar a identificar situações de risco, especialmente diante de propostas de trabalho, viagens ou mudanças de cidade ou país que envolvam promessas consideradas vantajosas.
Enfrentamento depende de atuação conjunta
Em Roraima, o enfrentamento ao tráfico de pessoas envolve órgãos de segurança, instituições de defesa dos direitos humanos, assistência social, universidades e organismos internacionais.
A atuação conjunta é fundamental para prevenir o crime, identificar possíveis vítimas, garantir atendimento e responsabilizar os envolvidos.
O Dia Mundial de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas reforça, portanto, a importância da conscientização sobre o crime e da atenção aos sinais de aliciamento, especialmente em regiões de fronteira como Roraima, onde o intenso fluxo migratório se soma a diferentes situações de vulnerabilidade social e econômica.
Comentários: