O Governo de Roraima declarou situação de emergência por estiagem e instalou o Gabinete Integrado da Operação El Niño 2026-2027 nesta quarta-feira, 02, em ato realizado na sede do CBMRR (Corpo de Bombeiros Militar de Roraima). As medidas foram formalizadas pelo governador Soldado Sampaio por meio de dois decretos que organizam a resposta do Estado ao período seco, agravado pelo fenômeno El Niño.
O primeiro decreto declara emergência em razão do desastre classificado como estiagem, de intensidade Nível II, com base em lei federal de 2012.
O segundo institui, em caráter extraordinário, o Gabinete Integrado da Operação El Niño 2026-2027, responsável por planejar e executar as ações de prevenção, mitigação, preparação, resposta e recuperação diante do cenário.
Durante pronunciamento, o governador Soldado Sampaio destacou que as medidas foram adotadas de forma preventiva diante dos prognósticos apresentados pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Femarh e especialistas, que apontam para uma estiagem de forte intensidade em Roraima.
“Precisamos tomar algumas medidas emergenciais para fazer a devida prevenção e minimizar os danos causados pela estiagem. O setor produtivo já acumula perdas significativas, algo de 30% ou mais na produção de milho, soja e outros grãos. Também já percebemos nossos rios e igarapés baixando acima da média e identificamos focos de incêndio. Por isso, estamos tomando as devidas providências”, afirmou.
Entre as ações anunciadas está a ampliação do efetivo de brigadistas para atuação em todo o Estado. Atualmente, 157 profissionais já foram contratados, com previsão de convocação de mais 47 e ampliação gradativa do contingente para reforçar as equipes disponíveis nos municípios.
Além do combate aos incêndios, o planejamento contempla medidas relacionadas à segurança hídrica. Segundo o governador, a Caer (Companhia de Águas e Esgotos de Roraima) deverá iniciar processos emergenciais para a perfuração de poços em localidades que já apresentam dificuldades no abastecimento urbano.
“Em muitas cidades do interior já temos falta de água para o abastecimento urbano. É uma preocupação nossa. Também determinei que a Procuradoria-Geral do Estado entre com uma ação contra a União para que seja cumprida a decisão judicial já tomada pelo STF em relação à perfuração de poços nas comunidades indígenas”, afirmou Sampaio.
ALERTA: Rios em níveis críticos
O monitoramento hidrológico do Sipam (Sistema de Proteção da Amazônia), com dados de 27 de agosto de 2026, registra níveis expressivamente abaixo da média histórica nas estações fluviométricas do Estado.
Na estação Boa Vista, no rio Branco, o nível chegou a 1,38 metro, abaixo da menor marca já registrada para um mês de agosto (1,39 metro) e 70,3% inferior à média histórica do mês (4,64 metros). Na estação Caracaraí, também no rio Branco, o nível de 2,05 metros ficou 62,7% abaixo da média histórica de agosto (5,50 metros).
O quadro compromete a navegabilidade, abastecimento hídrico e atividades produtivas ribeirinhas, com impactos diretos sobre comunidades rurais e indígenas, sobretudo na produção de subsistência.
Para o presidente da Femarh (Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos), Wagner Severo, a criação do gabinete permitirá otimizar os esforços dos órgãos públicos e ampliar a integração com instituições federais e municipais.
“A partir desse decreto, todas as instituições que compõem o Comitê de Queimadas vão trabalhar de forma integrada. O período de estiagem já demonstra que estamos tendo impacto direto com a escassez hídrica. Por isso, há a necessidade de o Estado antecipar ações, como o apoio à perfuração de poços e a ampliação do acesso à água potável”, explicou.
Recorde de focos de calor
Os dados do Programa Queimadas do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) reforçam a gravidade do período. Em agosto de 2026, com informações consolidadas até o dia 27, foram registrados 87 focos de calor ativos em Roraima, número que supera o recorde histórico para o mês desde o início da série, em 1998 (78 focos, em agosto de 2023). O total representa alta de 135% em relação a agosto de 2025 (37 focos) e supera em 335% a média histórica do mês no período de 1998 a 2026 (20 focos).
O comandante do Corpo de Bombeiros Militar de Roraima, coronel Anderson Carvalho de Matos, explicou que o planejamento começou antes da formalização do gabinete e que as equipes estaduais já vêm realizando alinhamentos desde julho.
“Estamos trabalhando muito previamente, agora no mês de setembro. Ainda não havíamos iniciado uma operação tão cedo. Essas ações são fundamentais para que minimizemos os impactos da estiagem e de tudo que temos de previsto nos prognósticos climatológicos em relação aos impactos do El Niño”, ressaltou.
O Governo de Roraima também reforça a importância da participação da população na prevenção dos incêndios. A orientação é evitar o uso indiscriminado do fogo durante o período de estiagem e, no caso dos produtores rurais, adotar medidas preventivas, como a construção de aceiros para proteger lavouras, cercas, currais e residências.
“Vamos precisar muito da sensibilização da população, não só para não fazer o uso indiscriminado do fogo, mas também para se prevenir. Aquele produtor rural que tem a possibilidade de fazer aceiro na sua propriedade, faça o aceiro”, orientou o comandante.
Prejuízos já atingem setor produtivo
O decreto de situação de emergência também atende a uma demanda apresentada pelo setor produtivo ao Governo de Roraima diante das perdas provocadas pela estiagem. Produtores participaram das discussões que antecederam a medida e relataram impactos já registrados na produção de grãos e na atividade pecuária.
O diretor da Coopercarne (Cooperativa Agropecuária de Roraima), André Prado, informou que as perdas tendem a aumentar caso o período de estiagem se prolongue.
“O governador está tomando ações bem ativas, o que demonstra o quanto o nosso governo é um governo de atitude. As perdas já começaram a aparecer e já ultrapassaram os 30% na lavoura e na produção de milho e soja. Temos uma perspectiva de que as perdas irão aumentar, até porque o El Niño é um processo que vai se estender por um período”, afirmou.
O presidente da Aprosoja Roraima, Murilo Ferrari, lembrou que julho registrou um cenário atípico de ausência de chuvas e ressaltou a importância da atuação integrada para proteger as áreas produtivas.
“O Estado de Roraima nunca passou por um mês de julho tão seco e a nossa produção de soja e milho foi extremamente afetada. O futuro que precisamos pensar agora é combater o fogo, porque, se ele passar nessas lavouras que já foram prejudicadas pela seca, vai comprometer a produtividade de anos”, destacou.
Gabinete é composto por 19 órgãos
O Gabinete Integrado da Operação El Niño 2026-2027 adota o modelo de SCI (Sistema de Comando de Incidentes), que padroniza procedimentos e define a estrutura de atuação dos órgãos. A coordenação ficará a cargo da Casa Civil e da CEPDC (Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil), com funcionamento integrado ao Ciman (Centro Integrado Multiagências de Coordenação Operacional Nacional).
Ao todo, 19 órgãos estaduais integram o gabinete, entre eles o CBMRR, a Femarh (Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos), a Casa Militar, a PMRR (Polícia Militar de Roraima), a PCRR (Polícia Civil de Roraima), a Sesp (Secretaria da Segurança Pública), a Sesau (Secretaria da Saúde), a Seadi (Secretaria da Agricultura, Desenvolvimento e Inovação), a Seinf (Secretaria da Infraestrutura), a Caer (Companhia de Águas e Esgotos de Roraima), o Iater (Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural) e a Aderr (Agência de Defesa Agropecuária de Roraima), além de Segad, Secidades, Setrabes, Secom, Sepi, Selc e Codesaima.
Situação de emergência por 180 dias
O decreto de situação de emergência tem vigência de 180 dias, podendo ser prorrogado ou revogado antecipadamente conforme avaliação técnica da Defesa Civil Estadual. O ato autoriza a mobilização dos órgãos estaduais para ações de monitoramento, prevenção, resposta, assistência humanitária e recuperação das áreas afetadas.
Em situações de risco iminente à vida ou à incolumidade pública, os agentes de proteção e defesa civil ficam autorizados a ingressar em residências e propriedades para prestar socorro ou determinar evacuação.
A medida se soma à Portaria nº 1.623, de 25 de fevereiro de 2026, https://www.in.gov.br/web/dou/-/portaria-gm/mma-n-1.623-de-25-de-fevereiro-de-2026-89268964, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, que declarou estado de emergência ambiental por risco de incêndios florestais em Roraima entre setembro de 2026 e abril de 2027.
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