A Diocese de Roraima realiza neste sábado, 31 de janeiro, a Ordenação Presbiteral do diácono Djavan André da Silva, indígena do povo macuxi. A celebração ocorre às 18h, na Catedral Cristo Redentor, no Centro Cívico de Boa Vista e, será presidida pelo bispo diocesano, Dom Evaristo Spengler. A ordenação presbiteral integra o sacramento da ordem, missão confiada por Cristo aos apóstolos e continuada pelos sacerdotes.
O evento marca a retomada das ordenações presbiterais após seis anos. O primeiro sacerdote ordenado foi Alvino Andrade, em 1990, o primeiro indígena Macuxi a receber a ordenação, que posteriormente deixou o ministério. Desde então, mais de dez presbíteros foram ordenados. A última celebração ocorreu em 2019, com a ordenação do padre Jefferson de Almeida. Com a celebração deste sábado, Djavan André torna-se o 12º padre diocesano.
Conheça o Diácono que será ordenado sacerdote
Nascido em 12 de abril de 1997, na comunidade Indígena Maturuca, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Filho de Djacir Melquior e Sarlene André. Recebeu o sacramento do batismo em 1998, aos 13 anos o sacramento da eucaristia, e em 2015, a crisma. Seu processo vocacional começou cedo, ainda em sua comunidade de origem.
Em 2016, o jovem ingressou no seminário diocesano Nossa Senhora Aparecida, em Boa Vista. Entre 2017 e 2023, cursou filosofia e teologia no seminário arquidiocesano São José, em Manaus. Em 2023, retornou a Roraima para dar continuidade à sua caminhada pastoral.
O primeiro grau da ordem ocorreu em abril de 2025, durante o Jubileu dos Povos Indígenas, no Surumu, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol.
Segundo o bispo diocesano, Dom Evaristo Spengler, a ordenação sacerdotal representa um momento significativo para a igreja local.
“A ordenação de Djavan é um marco, sobretudo porque ele vem de uma comunidade muito comprometida. Foi em Maturuca que começou toda a história da aliança da nossa Diocese com os povos indígenas. Por isso, a ordenação de Djavan é um selo dessa aliança forte da Igreja de Roraima com os povos indígenas.”
Para Djavan, o ministério presbiteral é fruto de fé e compromisso.
“Essa caminhada exige amadurecimento da fé e compromisso com a Igreja local. É um objetivo de seguir Jesus por meio do ministério e continuar perseverando na caminhada. Eu sinto essa alegria e essa graça de Deus que habita em mim, nas pessoas e nas comunidades”.
O futuro padre ainda ressaltou que o seu desejo é poder ajudar, servir e se colocar à disposição.
Dom Evaristo também destacou a missão de um sacerdote.
“O padre é alguém que se entrega a Deus e ao seu povo para anunciar a Palavra de Deus. Isso acontece nas celebrações, na formação de novos catequistas e na preparação de novas lideranças nas comunidades. Ele santifica o povo por meio dos sacramentos. É uma alegria poder reconhecer que, na pessoa do padre, é o próprio Cristo que age, transformando o pão e o vinho no Corpo e Sangue de Cristo, e oferecendo a Eucaristia aos fiéis. O padre está profundamente ligado à vida do povo, buscando santificá-lo por meio dos sacramentos.”
Djavan André é fruto de uma missão evangelizadora
O Padre Giorgio Dal Bem, que veio da Itália, deu início à Missão Maturuca em 1972. A iniciativa abriu um caminho de compromisso com o anúncio profético da palavra de Deus no coração dos povos indígenas.
O padre Giorgio recorda que a missão encontrou pessoas dispostas a escutar a mensagem do Evangelho. “A palavra de Deus encontrou corações abertos.”, destacou.
Em 1977, aconteceu uma reunião histórica conhecida como “vai ou racha”, quando lideranças do povo tomaram a decisão de romper com a bebida e assumir a responsabilidade de preservar a vida do povo indígena e fortalecer a comunidade. A partir desse momento, muitos projetos foram construídos e desenvolvidos ao longo dessa trajetória.
"A raiz da transformação começou quando, em poucas palavras, a proposta de Jesus Cristo se mostrou mais atraente e mais forte, vencendo a sedução das bebedeiras, das desordens, das violências e de toda a confusão que assolava as comunidades. A partir desse pequeno núcleo, que se manteve firme com esforço heroico e uma decisão corajosa, começou a se destacar o tuxaua Jacir, e dali passaram a surgir frutos de vida nova. Esse foi o início de uma caminhada de dignidade e também de liberdade, na qual as pessoas passaram a descobrir a responsabilidade em suas próprias vidas.”, ressaltou o padre Giorgio.
A avó de Djavan, Eldina Gabriel, destacou que essa vocação é fruto de muitas lutas e que hoje surge como uma luz para sua comunidade, tornando-se um elo de Deus com os Povos Indígenas.
“A vocação do Djavan representa uma esperança que nós aguardávamos. Aquilo que esperávamos para 2026 já se tornou um fruto, e esse fruto está aqui, como resultado do trabalho dele. Com toda a luta que enfrentou para chegar até este momento, ele deixa hoje uma semente que vai se espalhar entre nós, povos indígenas. Essa árvore que foi plantada, agora começa a se expandir. E nós esperamos que haja continuidade, para que esse fruto cresça e essa árvore continue dando muitos resultados.”
Segundo Jacir de Souza, avô de Djavan, com a ordenação do neto, ele verá um sonho se tornar realidade, o de ver o jovem celebrar a missa em sua língua tradicional.
“Meu neto esteve fora, mas agora com certeza, com a volta dele, ele vai começar a estudar a língua tradicional, e celebrar a missa em macuxi. Isso me deixa muito feliz”.
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