Rádio Monte Roraima FM

(95) 3624-4064

Notícias/Religião

Indigenismo encarnado: a história de quem escolheu caminhar com os povos indígenas

Livros recuperam a trajetória de Egydio Schawade e uma transformação na forma de pensar a presença missionária entre os Povos Indígenas

Indigenismo encarnado: a história de quem escolheu caminhar com os povos indígenas
Egydio Schawade na Prelazia da Diocese de Roraima/Foto: Kayla Silva
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
enviando

Antes de se tornar um dos nomes ligados à história do indigenismo no Brasil, Egydio Schawade era um jovem missionário diante de uma pergunta.

Era a década de 1960. No noroeste de Mato Grosso, ele trabalhava com crianças indígenas em internatos mantidos pela Igreja Católica. Ali, entre salas de aula e os caminhos de uma missão religiosa, começou a perceber que havia algo errado na forma como aquela presença missionária era construída.

Egydio começou a questionar o que significava, afinal, ser missionário entre povos indígenas.

Foi nesse questionamento que começou a nascer uma nova forma de compreender o indigenismo. Uma forma que não pretendia levar respostas prontas para as aldeias, mas caminhar até elas para ouvir, conhecer e aprender.

Encarnar-se na realidade

A palavra “encarnado”, presente no título dos livros que recuperam sua trajetória, não aparece por acaso.

Para Egydio, evangelizar não deveria significar simplesmente doutrinar. Era necessário “encarnar-se na realidade indígena”, aproximar-se dela até compreender seus valores, suas dores e seus modos próprios de existir.

A partir daí, a missão começou a ganhar outro significado. As “más notícias” que chegavam às comunidades indígenas eram concretas: a perda das terras, o enfraquecimento das culturas e a ameaça à autodeterminação.

Era preciso, portanto, estar ao lado dos povos diante dessas ameaças.

Uma mudança que atravessou fronteiras

Em 1967, durante a Semana Santa, Egydio e o missionário Tomás Lisboa viajaram ao Rio Grande do Sul. Em Nonoai, encontraram uma realidade marcada pelo esbulho das terras, pela exploração do trabalho e por diferentes formas de violência.

A experiência se transformou em denúncia. Os dois produziram uma série de artigos publicados no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, relatando a situação vivida por famílias indígenas.

A defesa do território começava a ocupar um lugar central.

A missão já não poderia ser pensada apenas a partir das estruturas da Igreja. Era necessário compreender a realidade dos povos e ajudá-los a fortalecer sua própria organização. Para Egydio, era nas aldeias, e não nos internatos, que estavam as “sementes de Deus” que deveriam ser encontradas.

“O Conselho orientava: busquem os missionários, colher as ‘sementes de Deus’ ocultas nos povos. Ora, essas sementes ocultas não se encontravam nos internatos, então não era propriamente uma perspectiva de doutrinação que a gente deveria seguir, mas elas se encontrariam nas aldeias. Daí nasceu a minha ideia de que mudar nessa perspectiva do Conselho, dizendo que a evangelização deveria se transformar, deveria ser realmente uma mensagem de boa nova contra as más novas que os povos sofriam”, disse o indigenista.

Foi também nesse período que Egydio participou de encontros que discutiam uma nova pastoral indígena. Em 1968, esteve no primeiro Encontro da Pastoral Indigenista, realizado em São Paulo. No ano seguinte, participou da criação da Operação Anchieta, que mais tarde se tornaria a Operação Amazônia Nativa, a OPAN.

A proposta reunia jovens, religiosos e leigos dispostos a atuar junto aos povos indígenas.

Não para ensiná-los a deixar de ser quem eram.

Mas para aprender a caminhar com eles.

A construção de um novo indigenismo

A transformação ganhou força no início dos anos 1970.

Egydio participou das articulações que deram origem ao Conselho Indigenista Missionário, o CIMI. Em 1973, tornou-se secretário-executivo da instituição, função que exerceu até 1980.

Durante esses anos, percorreu diferentes regiões do país. Encontrou comunidades, acompanhou suas lutas, ajudou a articular encontros e participou da construção de uma rede que começava a conectar povos indígenas de diferentes territórios.

O doutor professor Tiago Fonseca, autor do livro “Da causa perdida ao indigenismo encarnado: a trajetória de Egydio Schwade nos anos de chumbo (1972-1980)”, explica que essa perspectiva estava estruturada em três dimensões.

“Primeiro, conviver com os povos indígenas respeitando as suas culturas. Segundo, compreender, articular, fomentar e estruturar a posse da terra como a luta principal desses povos. Então, para que os povos indígenas lutassem pelos seus territórios, era fundamental, a terceira dimensão, fomentar a sua autonomia política”.

 

Três princípios - respeito às culturas, defesa da terra e autonomia política - passaram a orientar essa nova proposta. ­

A mudança acontecia justamente quando o Brasil atravessava um dos períodos mais duros de sua história, a ditadura militar.

Na Amazônia, grandes projetos avançavam sobre territórios e comunidades. Ao mesmo tempo, indígenas começavam a se organizar para reivindicar seus direitos e denunciar as violências sofridas.

Em abril de 1974, foram realizadas as primeiras Assembleias Indígenas entre diferentes povos. Os missionários ofereciam apoio logístico e estrutura, mas as discussões pertenciam aos próprios indígenas.

Obras recuperam a trajetória de Egydio Schwade

Anos depois, documentos, relatórios, artigos, entrevistas e anotações que ele guardou ao longo da vida foram reunidos e organizados para dar forma aos livros lançados no início de setembro: “Memória das lutas à construção do indigenismo encarnado” e “Da causa perdida ao indigenismo encarnado: a trajetória de Egydio Schwade nos anos de chumbo (1972-1980)”.

As páginas contam a história de uma Igreja que começou a rever seu modo de estar entre os povos indígenas. De jovens que deixaram universidades para viver em comunidades. De missionários que passaram a questionar o modelo de evangelização que encontraram. E de povos indígenas que, diante de um cenário de violência e perda territorial, começaram a construir novas formas de organização.

Egydio olha para esse passado sabendo que não caminhou sozinho. Havia outros missionários, religiosas, leigos, antropólogos e, sobretudo, os próprios povos indígenas.

Para o professor Tiago Fonseca, essa trajetória coloca Egydio entre os principais protagonistas da história indigenista no Brasil e na Amazônia, mas sempre dentro de uma construção coletiva:

“Então, por isso tudo, posso dizer, sem medo de errar, Egídio é um dos grandes protagonistas, junto, lógico, com os outros missionários, ele não fez nada sozinho, mas ele é um dos grandes protagonistas da história do Brasil e da Amazônia, sobretudo, ao longo dos últimos”, ressaltou.

Por isso, sua história não termina nele, ela continua nas assembleias, nas organizações indígenas, nas comunidades e nas lutas pelo território que atravessaram as últimas décadas.

Comentários:

Veja também

Faça seu pedido :)