“Se não existisse isso, nós viveríamos debaixo de uma ponte, na rua. Pelo menos aqui temos um refúgio que nos acolhe”, relata Mileida Curapa, venezuelana e mãe de dois filhos.
A fala de Mileida traduz uma realidade vivida por muitas famílias que chegam a Roraima. E para compreender o desafio da moradia em Roraima, é preciso olhar também para o contexto migratório que se intensificou nos últimos anos. Desde 2015, o estado de Roraima se tornou a principal porta de entrada para milhares de migrantes e refugiados venezuelanos, incluindo povos indígenas, crianças e adolescentes.
A partir de 2017, o fluxo migratório aumentou significativamente. Entre esse ano e 2024, cerca de 60 mil pessoas atravessaram a fronteira em busca de melhores condições de vida.
Ao chegar ao Brasil, umas das primeiras preocupações dos migrantes é encontrar um lugar para morar. Para muitas famílias, a trajetória começa em abrigos e casas de acolhidas, enquanto outras recorrem ao aluguel.
Entre milhares de migrantes e refugiados está Mileida, que deixou o país de origem em busca de um recomeço, de uma nova história e de novas oportunidades.
A decisão de migrar foi motivada por problemas familiares e pela dificuldade em consegui emprego, mesmo estudando administração. Segundo ela, após ser obrigada a deixar a casa onde morava com os filhos, viu uma alternativa para reconstruir a vida.
“A família do meu marido me tirou de casa. Um amigo que já estava aqui me disse para vir, mas eu não tinha dinheiro para a passagem. Trabalhei, tentei juntar recursos, mas era difícil porque estava sozinha com meus dois filhos. Mesmo assim, decidi vir. Minha família não concordava, mas segui em frente e, graças a Deus, consegui chegar”, conta.
Mileida viveu em um dos abrigos destinados a migrantes e refugiados. Nesses espaços, as moradias são chamadas de “Karpas”, estruturas que funcionam como pequenas casas para as famílias acolhidas. Apesar das limitações, ela afirma que o abrigo representa segurança e dignidade.
“Comparado com a situação em que eu vivia, é bom para mim. Algumas pessoas reclamam, mas eu agradeço a Deus. Se não existisse esse lugar, estaríamos morando debaixo de uma ponte, na rua. Pelo menos aqui temos um refúgio que acolhe os venezuelanos e outras pessoas também”, disse.
Para ela, a karpa representa a primeira casa em solo brasileiro e um espaço de proteção enquanto busca reconstruir a vida.
Confira o relato de Mileida Curapa
Crise migratória em Roraima
A história de Mileida se repete entre milhares de migrantes e refugiados. Desde 2015, atravessaram a fronteira em busca de proteção, trabalho e melhores condições de vida. Com a intensificação do fluxo migratório, Roraima passou a enfrentar uma crescente demanda por moradia, especialmente na Capital Boa Vista.
Dados revelado pelo Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), coloca o estado no topo da região Norte e na sexta posição no ranking nacional em proporção de domicílios alugados.
Os abrigos como primeira moradia
Para milhares de venezuelanos, os abrigos representam a primeira moradia em solo brasileiro. Nesses espaços, são oferecidos alojamento temporário, alimentação, assistência social e atendimento básico. Em 2018, como reposta humanitária do Governo Federal surge a Operação Acolhida. Criada com objetivo de garantir atendimento aos refugiados e migrantes venezuelanos.
Eles são organizados em parceria entre o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, e instituições implementares, como a AVSI Brasil. Em Roraima, o abrigo Rondon 1 é o principal ponto de acolhimento para quem chega no País.
Embora provisórios, os abrigos são vistos como um ponto de recomeço. Niusarete Lima, Gerente de Projeto da Secretaria Nacional de Assistência Social, explica que cada unidade habitacional funciona como espaço de transição.
“Ali é um espaço onde ele vai ter a sua privacidade respeitada. É o primeiro local onde ele pode entrar, fechar a porta e dormir tranquilo”.

Embora os abrigos sejam fundamentais para o acolhimento inicial, eles não são concebidos como moradia permanente. O objetivo é oferecer condições para que as famílias possam reorganizar e conquistar autonomia.
"É um espaço emergencial. Não é um local para as pessoas chegarem e morarem definitivamente. É um espaço de transição. Aqui trabalhamos para que essas famílias tenham condições dignas e possam seguir adiante’, disse Niusarete.
Déficit habitacional no Brasil
O acesso à moradia é um desafio que vai além da população migrante. O Brasil enfrenta um déficit habitacional de quase 6 milhões de moradias, segundo dados da Fundação João Pinheiro.
Além disso, milhões de brasileiros vivem em residências inadequadas, seja pela falta de saneamento básico, pela superlotação ou estruturas precárias.
A Igreja na luta por moradia digna
Este ano, a Igreja realizou a 41ª Semana do Migrante com o tema “Migração e Moradia”. A proposta é chamar a atenção para as dificuldades enfrentadas por migrantes, refugiados e pessoas em situação de deslocamento, especialmente no acesso à moradia.
O tema também dialoga com a Campanha da Fraternidade de 2026, que tem como tema “Fraternidade e Moradia”. A secretária-executiva da Cáritas Diocesana de Roraima, Joelma Costa, destaca que a iniciativa aborda um dos principais desafios enfrentados pela população migrante.
“Esses temas convidam a igreja e a sociedade a refletirem sobre uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos migrantes, que é o acesso à moradia digna. A proposta é despertar a consciência para a realidade de milhares de pessoas que deixam suas terras em busca de melhores condições de vida”, ressaltou.
Na Diocese de Roraima, a Casa da Caridade Papa Francisco realiza um trabalho articulado por meio das pastorais, movimentos e serviços da Igreja na dimensão da caridade. O lugar reúne vários serviços e obras sociais, incluindo a Cáritas Diocesana, Serviço da Pastoral dos Migrantes (SPM), Pastoral da Criança e outras pastorais da diocese que atuam no atendimento às populações mais vulneráveis.
Em um Estado que recebe milhares de pessoas em busca de um recomeço, a atuação dessas iniciativas chama a atenção para um desafio que vai além de ter um lugar para morar: o direito a moradia digna!
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