Em Pacaraima, cidade de Roraima na fronteira com a Venezuela, um sacerdote espanhol se destaca pelo trabalho humanitário junto aos imigrantes venezuelanos e às comunidades indígenas Warao. Há mais de uma década, ele acolhe pessoas em situação de vulnerabilidade, oferecendo desde alimentação e abrigo até apoio espiritual e educação.
“Sou o Padre Jesus, atuando, trabalhando, tentando trabalhar e ajudar na Patrulha do Migrante. Que não a comecei agora, não. Começamos esta luta há 11 anos. Tenho como galardão, como orgulho, ser pioneiro nessa missão que Deus nos indicou de ajudar os mais fracos”, afirma o religioso.
O Centro Pastoral do Imigrante, fundado em 2017, se tornou referência para refugiados que chegam à cidade em busca de esperança. Além de alimentação e abrigo, o espaço oferece orientações sobre documentação, acesso a serviços e encaminhamento para programas de interiorização do governo brasileiro. O sacerdote também realiza missas que reúnem centenas de venezuelanos, reforçando a sensação de comunidade em meio às dificuldades.

Entre as ações sociais, ele apoiou iniciativas educacionais voltadas para crianças indígenas Warao, garantindo matrícula escolar e acompanhamento pedagógico, mostrando um olhar de longo prazo sobre inclusão e futuro das famílias atendidas.
Apesar da dedicação, a missão enfrenta resistência. Ele relata ter sido alvo de ameaças, calúnias e até assaltos por parte de moradores que criticam o acolhimento aos imigrantes. Ainda assim, mantém a fé na cidade como receptiva: “Pacaraima não é uma cidade amaldiçoada. São pontes que se abrem com muito carinho e muita fraternidade”, destaca.
O sacerdote alerta para a gravidade da crise venezuelana, que ele compara a um “holocausto moderno” provocado pela fome: “Em 2015 e 2016 começou essa onda de pessoas cujo fator dominante foi a fome. Já não através de torturas nem perseguições políticas, mas através da fome. Cerca de 10 milhões de imigrantes estão nessa situação”, explica.
Ele também ressalta a importância da colaboração entre governos, sociedade civil e instituições religiosas. O trabalho conjunto permite acolher os venezuelanos independentemente de tendências políticas ou crenças religiosas: “Fazemos 11 anos tentando suavizar, não digo resolver, porque a resolução deve nascer em Caracas, tentando suavizar esse pesadelo do povo venezuelano. Mas também não aparece o fim do nosso desejo, da nossa obsessão de continuar ajudando e servindo a Cristo através de ajudar seus filhos mais necessários”, afirma.
Dados recentes mostram que o fluxo de imigrantes pela fronteira caiu cerca de 50% em comparação a anos anteriores, com pouco mais de 1 000 entradas registradas em 2026. Apesar da redução, o trabalho humanitário continua essencial, já que muitos chegam em situação de extrema vulnerabilidade.
O empenho do sacerdote exemplifica a atuação humanitária na fronteira, marcada por coragem, persistência e fé, oferecendo assistência, esperança e dignidade a quem busca um novo começo em Pacaraima.
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