A realidade de Roraima, marcada pela fronteira internacional, pelo garimpo ilegal e pelo intenso fluxo migratório, amplia os desafios para a prevenção e o enfrentamento ao tráfico de pessoas, à exploração sexual e ao trabalho escravo. O alerta foi feito pelo bispo da Diocese de Roraima, Dom Evaristo Spengler, durante a oficina “Migrantes, Indígenas e o Combate ao Tráfico Humano”, realizada nesta quinta-feira, 27, em Pacaraima.
Promovida pelo Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente de Roraima (CEDCAR/RR), a atividade reuniu representantes do Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente (SGDCA), instituições públicas, organismos internacionais e entidades que atuam na proteção de crianças e adolescentes na região de fronteira.
Além do bispo diocesano, estiveram presentes a chanceler da Diocese, Irmã Sofia Bouzada; os párocos de Pacaraima, padres Mattia Bezze e Giuseppe Danieli; e a secretária executiva da Cáritas Diocesana, Joelma Costa.
Durante a oficina, Dom Evaristo destacou que o tráfico de pessoas ainda é uma realidade pouco percebida pela sociedade, apesar dos relatos e situações de violência registrados no estado.
“Em 2024, a Comissão de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e ao Trabalho Escravo, da CNBB, esteve em Roraima. Durante as visitas realizadas pela comissão a diferentes estados do Brasil, era comum ouvir que, nesses locais, o tráfico era velado. Quando a comissão chegou a Roraima, porém, a conclusão foi outra: aqui, o tráfico é visível”, disse.
Segundo o bispo, três características do estado contribuem para aumentar a vulnerabilidade da população: a condição de fronteira, a presença do garimpo ilegal e o fluxo migratório.
“Eu quero ressaltar três coisas importantes em nosso estado. Nós somos um estado de fronteira. Somos um estado com muito garimpo ilegal. E aqui nós somos um estado com muitos migrantes. Essas realidades, elas potencializam o trabalho escravo e potencializam o tráfico de pessoas”, destacou.
Para Dom Evaristo, a localização geográfica de Roraima favorece a circulação de pessoas entre diferentes territórios e dificulta o controle sobre situações de exploração. O bispo também chamou atenção para os riscos enfrentados por pessoas atraídas por falsas oportunidades de trabalho no garimpo.
Outro ponto abordado durante a oficina foi a situação de pessoas migrantes que chegam a Roraima em busca de melhores condições de vida e podem se tornar vítimas de redes de exploração.
Igreja atua no enfrentamento ao tráfico humano
Durante a fala, Dom Evaristo também apresentou o histórico da atuação da Igreja Católica no enfrentamento ao tráfico de pessoas. Ele lembrou que a temática ganhou espaço na Igreja no Brasil a partir de iniciativas de conscientização e articulação com outras instituições.
Em 2014, a Campanha da Fraternidade teve como tema "Fraternidade e Tráfico Humano" e o lema bíblico "É para a liberdade que Cristo nos libertou", inspirado na Carta de São Paulo aos Gálatas.
O bispo explicou que, naquele período, ainda havia dificuldade para reconhecer o tráfico de pessoas como uma realidade presente no cotidiano.
“Naquela época eu trabalhava na Baixada Fluminense, nós fazíamos sempre todos os anos um curso para preparar as pessoas sobre a Campanha da Fraternidade. E naquele ano foi o tema mais difícil, porque na verdade as pessoas não acreditavam que essa realidade ainda fosse existente em nossos dias, no século XXI”, contou.
Dom Evaristo destacou que a falta de percepção sobre o problema contribui para que situações de exploração permaneçam invisíveis.
“As pessoas não conseguem levantar esse véu da realidade e perceber o que está por trás dela. Às vezes, algo está acontecendo debaixo dos nossos narizes, mas permanece invisível aos nossos olhos e não é percebido pela sociedade”, ressaltou.
Proteção de crianças e adolescentes
A oficina realizada em Pacaraima teve como objetivo fortalecer a articulação entre órgãos públicos, instituições e entidades que atuam na garantia dos direitos de crianças e adolescentes, especialmente indígenas e migrantes.
A programação incluiu discussões sobre o fortalecimento do Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente, políticas públicas de proteção, ações realizadas pelas instituições que atuam na fronteira e a apresentação do Guia da Resolução nº 232 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA).
A atividade contou ainda com a participação da presidenta do CONANDA, Deila Martins, ampliando a articulação entre as ações locais e nacionais de proteção.
Ao final, Dom Evaristo reforçou a necessidade de ações permanentes para enfrentar as situações de exploração e proteger crianças e adolescentes.
“Estão debaixo dos nossos olhos e é preciso tomar providências sérias, para que mais uma vez as nossas crianças não sejam massacradas e as nossas crianças sejam respeitadas”, concluiu.
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