Neste domingo, dia 8 de fevereiro, a Igreja Católica no Brasil e em todo o mundo celebra o 12º Dia Mundial de Oração e Reflexão contra o Tráfico de Pessoas. A mobilização é promovida pela Comissão Episcopal Especial para o Enfrentamento ao Tráfico Humano da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em parceria com a Rede Talitha Kum e a Rede Um Grito pela Vida.
Com o tema “Paz começa com dignidade: um chamado global para o fim do tráfico de pessoas”, a iniciativa convida a sociedade a refletir e agir diante de uma grave violação de direitos humanos que transforma pessoas em mercadoria e atinge, principalmente, os mais vulneráveis.
A data também marca a memória litúrgica de Santa Josefina Bakhita, mulher africana que foi escravizada ainda jovem, sofreu diversas violências e se tornou símbolo mundial da luta contra toda forma de exploração humana.

Para a religiosa ursulina irmã Renata Gonzato, integrante da Rede Um Grito pela Vida na Diocese de Roraima, a memória da santa reforça o compromisso com a denúncia e a defesa da vida.
“Nós celebramos o dia 8 de fevereiro porque fazemos memória de uma santa que foi traficada. Santa Josefina Bakhita passou por diversas situações difíceis, sofreu violências e até tentativas de fuga, até ser comprada por um cônsul italiano”, explica.
Em Roraima, a mobilização nacional também ganha vários desdobramentos. Uma programação no estado é organizada pela Cáritas Diocesana e pela Pastoral dos Migrantes, com ações de oração, orientação e prevenção ao tráfico de pessoas. As atividades acontecem neste domingo, a partir das 16h, em frente ao abrigo Janokoida, em Boa Vista, e incluem celebração eucarística, escuta e partilha com a comunidade.
Segundo a presidente da Cáritas Diocesana de Roraima, irmã Terezinha Santin, o trabalho realizado vai além da data comemorativa e se estende ao cotidiano de atendimento às pessoas em situação de vulnerabilidade.
“O trabalho e a celebração não se resumem a um único dia. Claro que o dia 8 é celebrado com mais ênfase, com a Eucaristia, mas junto com ela há toda uma programação de orientação, informação e escuta das pessoas”, destaca.
Ela explica que a atuação da Cáritas e da Pastoral dos Migrantes tem como foco principal o cuidado com a vida e a prevenção do aliciamento.
“O nosso compromisso é cuidar da vida. Por isso, além da oração, promovemos momentos de partilha, de escuta e de orientação, especialmente para ajudar as pessoas a identificarem situações de risco e propostas que não são lícitas”, afirma.
O alerta também está presente no atendimento diário realizado pelas equipes, que orientam migrantes e pessoas em trânsito a não confiarem em informações fora dos canais oficiais.
“Nos atendimentos que realizamos diariamente, o primeiro alerta é sempre o mesmo: não escutar orientações fora da equipe de atenção, porque muitas informações podem ser enganosas e até levar ao aliciamento de pessoas”, reforça a religiosa.
A mobilização dialoga ainda com dados que evidenciam a gravidade do problema. Informações da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que mulheres e meninas representam cerca de 65% das vítimas de tráfico de pessoas, e quase um terço são crianças. No Brasil, números do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) apontam que, somente em 2025, cerca de 84 mil pessoas desapareceram, entre elas 23.919 crianças e adolescentes.
Em entrevista à Rádio Monte Roraima FM, a coordenadora de Políticas sobre Pessoas Desaparecidas do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Iara Buoro, destacou que Roraima lidera a taxa proporcional de desaparecimentos no país, o que acende um alerta para a realidade local.
“Roraima lidera a taxa de desaparecimento por cem mil habitantes. Em 2025, foram registrados 577 desaparecimentos no estado, o que representa uma taxa de 78 casos por cem mil habitantes, enquanto a média nacional é de 39”, informou.
Segundo o Ministério da Justiça, o registro rápido do desaparecimento é fundamental para o início das buscas e para a proteção das vítimas.
“Não existe a necessidade de esperar 24 ou 48 horas para registrar um desaparecimento. Quanto antes a ocorrência for registrada, maiores são as chances de localização”, orienta Iara Buoro.
Para a Igreja, o enfrentamento ao tráfico de pessoas passa pelo engajamento de toda a sociedade, por meio da informação, da denúncia e da promoção da dignidade humana. Entre as ações propostas para o Dia Mundial estão vigílias de oração, mobilização nas redes sociais, formações, peregrinações e atividades públicas de conscientização.
A memória de Santa Josefina Bakhita reforça que o combate ao tráfico humano é uma missão permanente e coletiva.
“O tráfico humano denuncia uma grande violação da dignidade e da liberdade humanas. Por isso, somos convidados a denunciar e a mobilizar toda a sociedade para erradicar esse mal e resgatar a vida dos filhos e filhas de Deus”, conclui irmã Renata Gonzato.
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