Já reparou como serviços como creches para cães, hotéis pet, adestramento e alimentação natural estão cada vez mais presentes? A mudança pode ser percebida na rotina de quem tem um animal de estimação. Cada vez mais, os tutores buscam serviços que vão além dos cuidados básicos e investem na saúde, no bem-estar e na qualidade de vida dos pets. Em Roraima, esse novo comportamento também se reflete no mercado, que reúne 849 empresas do segmento, segundo levantamento do Sebrae. Em todo o país, o setor movimenta mais de R$ 75 bilhões por ano.
Para o analista técnico do Sebrae Roraima, Raul Carvalho, o crescimento do setor acompanha uma mudança na forma como cães e gatos passaram a ser vistos pelas famílias. Se antes eram criados principalmente para guarda ou companhia, hoje ocupam um espaço cada vez maior dentro de casa, influenciando também a forma como os tutores consomem produtos e serviços.
“Os animais deixaram de ser apenas bichos de quintal para se tornarem membros da família. Esse vínculo afetivo gera uma demanda contínua por produtos e serviços de maior valor agregado, tornando o setor altamente resiliente às crises financeiras”, afirmou.
Segundo Carvalho, embora a alimentação continue concentrando a maior parte do faturamento do mercado pet, cresce a procura por serviços especializados. Clínicas veterinárias, banho e tosa, creches, hotéis e pet sitter estão entre os segmentos que mais têm chamado a atenção dos consumidores.
Alimentação segue liderando o mercado
Os alimentos continuam sendo os produtos mais procurados pelos tutores e representam mais da metade do faturamento do setor. No entanto, o perfil de consumo mudou. A procura por rações premium, super premium e dietas personalizadas tem aumentado à medida que cresce a preocupação com a saúde dos animais.
Essa mudança também se reflete na área veterinária. A prevenção passou a fazer parte da rotina de muitos tutores, aumentando a procura por consultas, exames e medicamentos, além de serviços de higiene e estética animal.
Em Boa Vista, soluções como banho e tosa em domicílio, realizados em trailers ou vans adaptadas, também vêm conquistando espaço pela praticidade oferecida aos clientes. Outro segmento em expansão é o de hospedagem. Creches para cães, hotéis pet e serviços de pet sitter têm registrado aumento na procura, principalmente durante férias e feriados prolongados.
Mercado acompanha nova relação entre tutores e pets
A empresária Mira Sarmento acompanha essa mudança desde que decidiu abrir a Homepet, há cinco anos. A ideia surgiu quando precisou deixar o trabalho para cuidar da primeira cadela, que enfrentava problemas de saúde. O que começou como uma necessidade acabou se transformando em negócio.
Segundo ela, quando a empresa foi criada, poucas pessoas conheciam o conceito de creche para cães. Hoje, a procura é bem diferente. “As pessoas mudaram a forma de olhar o animal. Perceberam que eles precisam socializar e fazer atividades diversificadas”, contou.
De acordo com Mira, a maior parte dos clientes é formada por pessoas solteiras ou casais sem filhos que enxergam os animais como integrantes da família e procuram oferecer uma rotina mais saudável aos pets.
Ela explica que muitos tutores passaram a compreender que deixar o animal sozinho durante todo o dia pode comprometer seu comportamento e bem-estar.
“Hoje eles conseguem entender que um animal apenas dentro de casa é um animal triste, pouco socializado e que muitas vezes acaba desenvolvendo comportamentos destrutivos por causa da energia acumulada”, explicou.
Apesar do crescimento do setor, a empresária afirma que ainda há dificuldades para encontrar profissionais qualificados.
“O grande desafio é a mão de obra. Como é uma atividade relativamente nova, é difícil encontrar profissionais que entendam comportamento animal, saibam trabalhar com enriquecimento ambiental e façam a leitura da linguagem corporal dos cães”, disse.
Para ela, o mercado ainda oferece muitas oportunidades, mas exige qualificação constante. “Cada animal é único. Os empreendedores precisam buscar conhecimento para oferecer um serviço de qualidade, porque o que funciona para um pode não funcionar para outro”, afirmou.
Adestramento ganhou força após a pandemia
O crescimento do mercado também foi percebido pelo adestrador Rodrigo Fernandes, que atua na área desde 2018 em Boa Vista. Segundo ele, a procura pelo serviço aumentou principalmente a partir de 2020, impulsionada por dois fatores: a mudança na forma como os tutores passaram a enxergar os animais e a pandemia da Covid-19.
“A cultura em relação aos cães foi se humanizando. Os animais que antes ficavam no quintal passaram a viver dentro de casa e fazer parte da rotina das famílias. Com isso, as pessoas começaram a buscar mais orientação para melhorar essa convivência”, afirmou.
De acordo com Rodrigo, durante o período de isolamento social muitos tutores passaram praticamente o dia inteiro com os animais e perceberam comportamentos que antes passavam despercebidos.
Entre as principais demandas estão casos de cães agressivos ou reativos, comportamento que, segundo ele, muitas vezes está relacionado à falta de socialização ainda nos primeiros meses de vida.
“O cão reativo sente medo e responde com agressividade. Já o cão agressivo enxerga pessoas e outros animais como uma ameaça. Hoje recebemos muitos casos desse tipo, além de filhotes que precisam aprender comportamentos básicos, como fazer as necessidades no local correto, não fugir quando o portão abre e conviver melhor com pessoas e outros cães”, explicou.
Para o adestrador, o serviço deixou de ser visto como um gasto e passou a ser encarado como um investimento na qualidade de vida dos animais.
“Hoje a maioria dos tutores entende que o adestramento melhora não apenas o comportamento do cão, mas também a convivência dentro de casa. Ainda existe muito espaço para conscientização, mas a percepção mudou bastante nos últimos anos”, disse.
Rodrigo afirma que um dos desafios para quem trabalha com animais em Roraima é o clima. Segundo ele, atividades ao ar livre precisam ser planejadas para evitar que cães e profissionais sejam expostos às altas temperaturas.
“Nossos passeios começam bem cedo e terminam antes do calor mais intenso. À tarde, retomamos apenas quando a temperatura diminui. É um cuidado necessário para preservar o bem-estar dos animais.”
Bem-estar e tecnologia ditam novas tendências
Além do crescimento dos serviços tradicionais, o mercado pet tem acompanhado novas tendências de consumo. Segundo Raul Carvalho, os tutores passaram a buscar soluções voltadas à saúde física e emocional dos animais.
Entre elas estão alimentação natural, petiscos artesanais, fisioterapia, acupuntura, terapias integrativas e outros serviços voltados ao chamado bem-estar animal.
Outra tendência observada pelo Sebrae é o crescimento do mercado voltado exclusivamente para gatos. Clínicas especializadas, hotéis, brinquedos e produtos desenvolvidos para felinos ainda representam um nicho pouco explorado em Roraima, mas com potencial de crescimento.
A tecnologia também tem conquistado espaço. Aplicativos para agendamento de consultas, compras programadas de ração e petiscos e sistemas de monitoramento por câmeras em hotéis para cães são exemplos de soluções que começam a fazer parte da rotina de parte dos consumidores.
Crescimento exige planejamento
Apesar do cenário favorável, Carvalho ressalta que empreender no mercado pet exige planejamento e gestão.
Segundo ele, a concorrência vem aumentando com a abertura de novos negócios e, por isso, oferecer apenas os serviços tradicionais já não é suficiente para se destacar.
“O empreendedor que permanece apenas no básico encontra mais dificuldades para competir. Hoje a especialização faz diferença e agrega valor ao negócio”, afirmou.
Outro desafio apontado pelo analista é a dificuldade para encontrar profissionais qualificados em áreas específicas, como comportamento animal, estética pet e gestão especializada.
O controle financeiro também exige atenção. A variação no preço de insumos e produtos veterinários faz com que o acompanhamento dos custos seja fundamental para manter a sustentabilidade do negócio.
Empresários participarão da maior feira pet da América Latina
Como forma de incentivar a inovação no setor, o Sebrae Roraima promoverá uma missão empresarial para a Pet South America 2026, considerada a maior feira do segmento na América Latina. Quinze empresários do estado participarão da programação.
Mira Sarmento esteve nas edições de 2024 e 2025 e afirma que a experiência foi importante para acompanhar as mudanças do mercado. “Para quem está longe dos grandes centros, a feira permite conhecer tendências, participar de cursos, trocar experiências e trazer novas ideias para Roraima”, contou.
Segundo Raul Carvalho, além da missão empresarial, o Sebrae oferece consultorias em gestão, planejamento financeiro, marketing, capacitações e soluções voltadas à inovação para empresas do segmento.
Mercado ainda oferece oportunidades
Mesmo com o aumento no número de empresas, o Sebrae avalia que ainda há espaço para novos empreendedores, principalmente em nichos especializados.
Hospedagem de alto padrão, confeitaria pet, alimentação natural, serviços exclusivos para gatos e negócios voltados ao bem-estar animal aparecem entre as áreas com maior potencial de crescimento.
Para Carvalho, o diferencial está na especialização e na capacidade de oferecer um atendimento personalizado aos clientes.
“O mercado pet não é uma onda passageira. É um setor consolidado e que continua crescendo. Quem entra preparado, com planejamento e uma proposta diferenciada, encontra oportunidades para empreender”, concluiu.
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