Falar sobre saúde mental no contexto religioso pode envolver dificuldades para reconhecer a necessidade de acompanhamento profissional. Segundo a psicóloga Mariana Pessoa, padres e outros líderes religiosos também podem enfrentar situações de sofrimento emocional, mesmo exercendo funções de liderança e tendo uma vida de fé.
Segundo a psicóloga Mariana Pessoa, a fé e a posição de liderança não tornam uma pessoa imune ao sofrimento emocional. Ainda assim, reconhecer a necessidade de ajuda pode ser difícil para quem está acostumado a ocupar o lugar de quem acolhe, orienta e ampara.
“Essas pessoas entendem que deveriam estar bem por professarem uma fé, por serem líderes religiosos, sacerdotes. Elas não admitem que também podem precisar de ajuda. E, como estamos falando de pessoas no geral, precisamos entender que, independentemente de qualquer coisa, temos especialistas que são capacitados”, explica a psicóloga.
A profissional destaca que a ansiedade e a depressão não escolhem uma religião, uma condição econômica, um gênero ou uma cor. O sofrimento psíquico pode atravessar diferentes histórias e realidades, inclusive dentro dos espaços religiosos.
Nesse sentido, procurar ajuda profissional não significa abandonar a fé ou admitir uma incapacidade. Significa reconhecer os próprios limites e compreender que ninguém precisa sustentar tudo sozinho.
“Procurar ajuda não é um sinal de fraqueza, muito pelo contrário, é um sinal de inteligência emocional. É admitir que nós não somos autossuficientes e nunca seremos, porque nós precisamos uns dos outros”, disse.
Para quem dedica grande parte da rotina ao cuidado com outras pessoas, olhar para si também pode se tornar um exercício necessário. O excesso de responsabilidades e a atenção constante às necessidades alheias pode fazer com que os próprios sinais de sofrimento sejam deixados para depois.
Mariana chama atenção para esse movimento de colocar o outro sempre em primeiro lugar.
“Se importar muito com todos e deixar de se importar consigo mesmo é sempre um risco enorme para a saúde mental. Para continuar cuidando, o inteligente é se cuidar também”.
O cuidado, nesse caso, também passa pela prevenção. Familiares, amigos e pessoas próximas podem exercer um papel importante ao perceber mudanças e oferecer apoio, especialmente quando surgem sinais de sofrimento intenso ou pensamentos relacionados à morte.
Nessas situações, a orientação é não enfrentar o sofrimento em silêncio. A busca por profissionais especializados pode fazer parte de uma rede de cuidado construída com escuta, acolhimento e respeito aos limites de cada pessoa.
Porque, antes de ser líder, sacerdote ou alguém a quem muitos recorrem em busca de orientação, existe uma pessoa. E reconhecer essa humanidade também é uma forma de cuidado.
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