Agente Secreto coroou nos primeiros minutos desta segunda-feira (12/1) o grande momento do cinema do Brasil. O prêmio de melhor filme de língua não inglesa conferido ao longa de Kleber Mendonça Filho valoriza, segundo o diretor, o contexto histórico que torna essencial a produção cinematográfica, no Brasil e no mundo. E a estatueta de melhor ator a Wagner Moura
"Dedico esse filme aos jovens cineastas. Esse é um momento da história muito importante para fazer filmes, aqui nos Estados Unidos e no Brasil. Vamos continuar fazendo filmes", disse Kleber Mendonça Filho. O cineasta que levou a importância do cinema pernambucano ao mundo refere-se à ascensão da extrema direita e das ameaças à democracia no mundo.
Estamos muito felizes de ver um filme brasileiro gerando tanta discussão boa sobre a história do Brasil. E eu quero muito ver jovens cineastas brasileiros e brasileiras. Pode usar telefone, pode fazer seu próprio projeto. A gente falando da nossa casa todo mundo ouve ao redor do mundo."
O diretor saudou também o protagonista de O Agente Secreto, o ator Wagner Moura, que já havia sido premiado no festival de Cannes, e maio do ano passado. E que tem se apresentado como uma das vozes mais importantes do cinema, da cultura e da política do Brasil. "As melhores coisas acontecem quando você tem um grande ator e um grande amigo", disse Kleber, ao enaltecer o trabalho de Moura.
O Globo de Ouro coroa uma carreira impactante. Kleber Mendonça Filho já fez história no cinema com obras como Bacurau, Retratos Fantasmas, O Som ao Redor e Aquarius. O prêmio alimenta ainda um cenário de difícil porém consistente retomada da produção audiovisual.

Ambientado nos anos 1970, O Agente Secreto é um das mais criativas narrativas da cultura nacional sobre as origens e frutos da ditadura civil militar que governou o Brasil por 21 anos desde 1964, e ainda assombra o País. O filme rompe a bolha da ditadura como "atividade fim" e conecta o golpe ao seu papel de "atividade meio", de assegurar por meio da violência de Estado as tenebrosas transações já cantadas por Chico Buarque. Expõe seus financiadores, seus capatazes e abre uma olho mágico para que se observe o que acontece hoje no planeta, sob interesse maior de grandes corporações.
"Meu irmão, você é um gênio", disse Wagner Moura a Kleber, ao receber a estatueta. O ator acentuou a importância do filme por seu papel para a memória nacional. "Ou a falta dela." Se foi verdade que causou um trauma geracional, disse Moura, referindo-se ao período ditatorial, a cultura responde com valores. Se o trauma pode ser passado de uma geração a outra, os valores também podem", afirmou Wagner Moura. "Viva a cultura brasileira!"
O cinema do Brasil volta a vencer o prêmio de melhor filme de língua não inglesa 27 anos depois de Central do Brasil. E traz mais uma estatueta da principal associação da indústrias cinematográfica antes do Oscar para um artista brasileiro, um ano depois de Fernanda Torres, por Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, o mesmo de Central do Brasil.
O Agente Secreto já havia vencido dezenas de prêmios pelo mundo, inclusive os de melhor direção e ator, para Mendonça Filho e Moura no Festival de Cannes. A exibição, sua estreia mundial, foi ovacionada durante 13 minutos ininterruptos, foi antecedida por uma vibrante celebração brasileira. O elenco e a equipe técnica chegaram ao tapete vermelho ao som do frevo pernambucano, embalando as ruas de Cannes com uma orquestra que levou a energia do Brasil ao coração do festival.O mesmo festival, na França, entregou o prêmio do Juri , que também premiou Fernanda Torres.
Na categoria "língua não inglesa", o longa concorreu com Valor Sentimental, Foi Apenas um Acidente, A única saída, Sirat e A Voz de Hind Rajab. Teve também a indicação para melhor filme, prêmio que acabou ficando com Hamnet - A vida de Hamlet. Para receber o prêmio de melhor ator, Wagner Moura superou nomes como Dwayne Johnson (Coração de Lutador: The Smashing Machine), Jeremy Allen White (Springsteen: Salve-me do Desconhecido), Joel Edgerton (Sonhos de Trem), Michael B. Jordan (Pecadores) e Oscar Isaac (Frankenstein).
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