A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos está sendo acompanhada de perto em Roraima, estado brasileiro que faz fronteira direta com a Venezuela pelo município de Pacaraima, no Norte do país. O episódio, que ganhou repercussão internacional, provocou o fechamento temporário da fronteira no último sábado, logo após o anúncio da prisão, mas a passagem internacional já foi reaberta e, desde então, o movimento é descrito como tranquilo e com fluxo reduzido.
Nesta segunda-feira (5), o Exército Brasileiro reativou o posto de triagem da Operação Acolhida em Pacaraima, enquanto a Polícia Federal retomou o controle migratório. Segundo a coordenação da operação, não há, até o momento, indícios de uma nova crise humanitária, embora as equipes estejam preparadas para um possível aumento no fluxo migratório nos próximos dias.
De acordo com informações oficiais da Operação Acolhida, o cenário na fronteira com o Brasil permanece estável. O fluxo de pessoas em Pacaraima encontra-se normalizado, ordenado e seguro, inclusive em períodos de fim de semana. A força-tarefa humanitária segue em prontidão para eventuais mudanças no cenário, garantindo o ordenamento da fronteira e a segurança da população roraimense.
Autoridades monitoram possíveis impactos
Em nota oficial, o governo de Roraima informou que acompanha com atenção os acontecimentos recentes na Venezuela e eventuais repercussões na estabilidade regional, reafirmando o compromisso com a paz, a ordem pública e a segurança da população. O comunicado destaca ainda que, em razão da localização geográfica, o estado mantém relações históricas de cooperação com países vizinhos, como Venezuela e Guiana, e que há contato permanente com órgãos da União para monitorar possíveis desdobramentos.

O prefeito de Boa Vista, Artur Henrique, em vídeo divulgação em sua rede social, ressaltou que o momento exige cautela, mas também abre espaço para esperança de reconstrução democrática no país vizinho. Segundo ele, ainda há incertezas sobre o futuro político da Venezuela, uma vez que o governo segue nas mãos de aliados de Maduro.
“A gente não sabe muito bem como é que o país vai se comportar agora. Não sabemos se esse processo de transição vai ser rápido ou lento, ou se pode envolver novos conflitos. Isso pode trazer impactos no fluxo migratório para Roraima, o que nos preocupa”, afirmou.
Ao mesmo tempo, o prefeito destacou o potencial de uma retomada democrática. “Por outro lado, isso também nos traz um sentimento de esperança, de que a ordem democrática da Venezuela possa ser retomada. Isso faria com que a economia crescesse e que a Venezuela pudesse voltar a ser aquele país que nós roraimenses conhecíamos, com uma economia forte, turismo forte e uma relação comercial positiva com Roraima.”
Artur Henrique também comentou o debate sobre soberania nacional e os interesses geopolíticos dos Estados Unidos, ressaltando que regimes autoritários, segundo ele, violam direitos humanos, perseguem opositores e estão associados a redes internacionais de tráfico de drogas. “Isso não é democracia. A soberania nacional precisa ser respeitada quando o país respeita sua própria população e os países vizinhos”, concluiu.
Já o prefeito de Pacaraima, Waldery D’Ávila, manifestou profunda preocupação com os ataques ocorridos em Caracas e informou que o município segue monitorando a situação em conjunto com as forças de segurança para garantir a estabilidade e a paz na região fronteiriça.
Venezuelanos entre alívio e cautela
Do lado venezuelano, o sentimento é de alívio misturado com prudência. Em Boa Vista, venezuelanos foram vistos comemorando a queda de Maduro nas ruas, expressando esperança de mudança no cenário político, econômico e social do país.
Entre eles está Wilimar Ferreira, que vive em Roraima após fugir da Venezuela vítima de perseguição política. Para ela, a prisão representa um marco histórico, mas não encerra automaticamente o sofrimento vivido pelo povo venezuelano.
“A prisão de Nicolás Maduro representa um momento muito forte para o nosso povo. Foi inesperado, porque durante anos existiu essa expectativa de que a justiça pudesse alcançar os responsáveis pela crise do país”, afirmou.
Segundo Wilimar, o momento traz alívio após anos de repressão, fome e migração forçada, mas também exige cautela. “Existe esperança, sim, mas também a dúvida se essa prisão vai gerar mudanças reais ou se ficará apenas como um fato simbólico. O venezuelano aprendeu a não criar muita expectativa.”
Ela destaca que o episódio representa a possibilidade de justiça e memória histórica. “Não é apenas um assunto político, é algo pessoal, ligado à dor, à sobrevivência e à esperança de que a Venezuela possa reconstruir sua democracia, sua dignidade e sua liberdade.”
Impactos econômicos e riscos geopolíticos
Para analisar os impactos econômicos e logísticos da crise venezuelana em Roraima, a reportagem ouviu o cientista político Paulo Racoski, que avalia que o momento é de extrema complexidade no cenário internacional.
Segundo ele, países como China e Rússia pressionam para que a Venezuela mantenha um mínimo de estabilidade institucional, não necessariamente por afinidade política, mas por interesses econômicos ligados ao petróleo, gás e minérios estratégicos. “O que se tenta é manter condições mínimas de sobrevivência do Estado venezuelano, já que há bloqueio econômico, bloqueio naval e bloqueio de ativos no exterior.”
Racoski alerta que uma escalada do conflito pode transformar o atual fluxo migratório em uma onda de refugiados de guerra, com impacto direto sobre Roraima. “Se houver bombardeios em larga escala ou uma guerra civil, o fluxo pode ultrapassar 10 mil pessoas em poucas horas, o que seria um cenário completamente diferente do atual.”
No campo econômico, o cientista político destaca que Roraima mantém uma relação comercial significativa com a Venezuela, especialmente na exportação de alimentos e produtos manufaturados, além do turismo regional. “Uma instabilidade grave paralisa primeiro o turismo, depois o comércio. Ninguém faz turismo em zona de guerra. Isso impacta diretamente a economia de Boa Vista e dos municípios de fronteira.”
Fronteira segue monitorada
A fronteira entre Brasil e Venezuela, que se estende por mais de dois mil quilômetros, segue sendo monitorada por Polícia Federal, Força Nacional e Forças Armadas. O governo brasileiro mantém o alerta para possíveis movimentos migratórios, mas reforça que a região permanece tranquila, monitorada e aberta.
Enquanto isso, Nicolás Maduro e sua esposa já foram levados para uma prisão em Nova York e devem comparecer ainda hoje a um tribunal norte-americano, onde responderão a acusações de narcoterrorismo, tráfico de cocaína e posse ilegal de armas.
Do lado brasileiro, a avaliação oficial é de estabilidade, mas com vigilância constante. Roraima, mais uma vez, ocupa posição estratégica diante de uma crise internacional que ultrapassa fronteiras e pode redefinir os rumos políticos da América Latina.
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