O Conselho Indígena de Roraima (CIR) divulgou uma carta pública nesta sexta-feira (20), cobrando respostas das autoridades sobre a morte do jovem indígena Gabriel Ferreira, do povo Wapichana. O documento é intitulado “Carta dos Povos Indígenas de Roraima: ‘Quem matou Gabriel Ferreira?’” e reúne lideranças de diversas regiões do estado.
No texto, tuxauas, mulheres, jovens, professores, agentes de saúde e lideranças das regiões da Serra da Lua, Alto Miang, Alto Cauamé, Tabaio, Murupu, Surumu, Baixo Cotingo, Raposa, Serras e Amajari manifestam “profunda indignação e revolta” diante do caso.
Gabriel Ferreira era jovem liderança da comunidade Novo Paraíso, na região do Amajari. Ele desapareceu no dia 1º de fevereiro e foi encontrado sem vida no dia 10, nas proximidades da comunidade, fora da Terra Indígena Araçá.
Segundo a carta, desde o primeiro momento, todos se mobilizaram intensamente para encontrá-lo com vida. Dia e noite, percorreram estradas, lavrados e comunidades, movidos pela esperança de levar o jovem de volta para a comunidade.
As lideranças afirmam que, até o momento, o Estado não apresentou respostas claras sobre a causa da morte.
“Para nós, povos indígenas, há fortes indícios de que nosso irmão de luta foi brutalmente assassinado. Seu corpo foi encontrado às margens da RR-203, jogado, com sinais de tortura, um cenário que revela extrema violência e exige resposta imediata das autoridades”, destaca o documento.
A carta também reforça que não aceitará omissão por parte do poder público. “Não aceitaremos silêncio. Não aceitaremos omissão. Não aceitaremos mais um caso de violência contra nosso irmão sendo empurrado para a impunidade.”
Histórico de violência
No documento, as lideranças relembram outros episódios de violência contra povos indígenas em Roraima, citando ataques e assassinatos ocorridos nas últimas décadas, como a emboscada na ponte do Rio Ereu, em 2000; a morte de Aldo Mota Macuxi, em 2003, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol; além de atentados registrados na região do Surumu entre 2004 e 2008.
“Até hoje, muitos desses crimes seguem sem punição, alimentando o ciclo de violência contra os povos indígenas”, afirma o texto.
As lideranças também denunciam perseguições e ameaças sofridas ao longo dos anos.
“Queremos viver sem medo. Queremos circular em nosso próprio território com segurança. Queremos exercer nossa cultura e nossa liderança sem sermos silenciados pela violência.”
Quem era Gabriel Ferreira
Na carta, Gabriel é lembrado como “um jovem líder, cheio de vida, coragem e sonhos”. Ele exerceu o cargo de coordenador regional da juventude de Amajari e, posteriormente, foi eleito secretário regional.
“Gabriel se consolidou como uma grande liderança indígena, firme e corajosa, que jamais se intimidou diante dos desafios na defesa dos direitos de seu povo. Hoje, sua ausência dói profundamente, mas sua memória segue viva em cada jovem que ele inspirou e em cada luta que ajudou a fortalecer”, diz o documento.
Exigências às autoridades
Ao final, as lideranças apresentam uma série de reivindicações, entre elas:
- Investigação imediata, rigorosa e transparente sobre a morte de Gabriel Ferreira;
- Identificação e responsabilização criminal de todos os envolvidos;
- Acompanhamento do caso por órgãos de controle e direitos humanos, pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal;
- Garantias de proteção às lideranças e à comunidade Novo Paraíso.
A carta termina com as lideranças reforçando o pedido por esclarecimentos dos fatos: “Seguiremos vigilantes, exigindo a verdade e a responsabilização dos culpados. Justiça por Gabriel Ferreira! Mexeu com um, mexeu com todos!”
O ato foi realizado na comunidade Mangueira, na Terra Indígena Araçá.
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