A colheita do açaí é um dos símbolos da economia e da cultura da região Norte do Brasil. Presente na rotina de milhares de famílias, a atividade garante renda, alimento e identidade para comunidades rurais. Por trás desse cenário, no entanto, existe uma realidade marcada por riscos constantes à saúde e à vida dos trabalhadores. Em Roraima, a tecnologia começa a redesenhar essa história, mostrando que inovação e tradição podem caminhar juntas no campo.
Desde a infância, o produtor rural Paulo Serra vive do extrativismo do açaí. Ao longo dos anos, trabalhou em estados como Pará e Maranhão, sempre repetindo o mesmo movimento: subir em açaizeiros altos para alcançar os cachos do fruto. Uma prática comum na região, mas que carrega perigos.
a produção que hoje abastece sua loja em Roraima. Foto: Luana de Oliveira
“Na minha infância, eu tirei muito açaí. Trabalhei no Pará, depois no Maranhão, sempre vivendo disso. Até que um dia o açaizeiro quebrou, eu caí e me machuquei. A partir dali, comecei a buscar uma alternativa”, relembra.
A subida no açaizeiro é tradicionalmente feita com o uso da peçonha, um laço preso aos pés que permite a escalada do tronco da palmeira. Embora seja uma técnica amplamente difundida entre os extrativistas, exige grande esforço físico e expõe o trabalhador a quedas, fraturas e outros acidentes graves.
Segundo a pesquisa O peconheiro – Diagnóstico das condições de trabalho do extrativista de açaí, financiada pelo Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região (TRT-8) e realizada pelo Instituto Peabiru, a colheita do açaí está entre as atividades mais perigosas do Brasil. Em períodos de pico da safra, podem ocorrer mais de um milhão de subidas em açaizeiros em um único dia, com registros frequentes de acidentes que resultam em lesões e internações.
Tecnologia que preserva vidas
Foi a partir desse cenário que surgiu o Climbot, um robô desenvolvido para auxiliar na colheita do açaí sem a necessidade de escalada humana. A tecnologia foi criada pela startup roraimense Agranus, a partir da análise de dados técnicos e da vivência prática no campo.
Foto: Luana de Oliveira
De acordo com Carlos Coutinho, CEO da startup, a proposta nasceu da integração entre conhecimento acadêmico e a realidade do extrativismo. “Existem vários artigos e documentos que mostram o quanto essa atividade é perigosa. A partir desses dados, a gente começou a pensar no que poderia ser feito”, explica.
O Climbot é um equipamento robusto, projetado para operar em ambientes rurais adversos, inclusive em áreas alagadas. Controlado remotamente, o robô sobe no açaizeiro por meio de um sistema de tração que garante aderência ao tronco da palmeira. O operador posiciona o equipamento no cacho maduro, aciona o mecanismo de corte e o robô retorna ao solo com o fruto, reduzindo drasticamente a exposição do trabalhador aos riscos da atividade.
Além da segurança, a tecnologia contribui para o aumento da produtividade. Sem o desgaste físico da escalada, o extrativista consegue passar mais tempo colhendo, com menor risco de quedas ou de ataques de animais peçonhentos em altura.
Inovação que transforma o trabalho no campo
O impacto do Climbot vai além da segurança. Com maior produtividade e melhores condições de trabalho, o produtor rural passa a ter mais estabilidade de renda. Esse fator é determinante para evitar a substituição da cultura do açaí por outras atividades econômicas, fortalecendo o extrativismo sustentável.
“Com mais renda, a gente consegue manter a floresta em pé. Isso gera preservação e até o enriquecimento da área”, destaca Carlos Coutinho.
Os testes do equipamento vêm sendo realizados em propriedades rurais de Roraima, entre elas o sítio de Paulo Serra, que se tornou parceiro da startup no aprimoramento da tecnologia. A relação entre produtor e desenvolvedor fortalece uma inovação construída a partir das demandas reais do território.
Apesar dos avanços, a introdução de tecnologia no campo ainda desperta desconfiança entre parte dos trabalhadores, principalmente pelo receio de perda de empregos. Para os envolvidos no projeto, essa percepção não corresponde à realidade.
“O robô não substitui o trabalhador. Ele precisa de uma pessoa para operar”, afirma Carlos. Paulo Serra reforça que a tecnologia transforma a função, mas preserva o emprego. “O peconheiro que antes subia na peçonha passa a operar o robô. Os ajudantes continuam trabalhando normalmente. Isso não é para tirar o emprego de ninguém, é para salvar vidas”, diz.
Além da colheita, Paulo também atua como incentivador do cultivo do açaí em Roraima. Há seis anos, ele estimula produtores locais a investirem na agricultura familiar, acreditando no potencial da cultura como ferramenta de desenvolvimento social e econômico no campo.
Desenvolvimento regional com raízes locais
O avanço do Climbot conta com o apoio do Sebrae Roraima, que atua no fortalecimento de startups e negócios inovadores no estado. A Agranus participou de programas de aceleração, como o Inova Amazônia, voltados ao aprimoramento de modelos de negócio e à inserção de soluções tecnológicas no mercado.
Foto: Luana de Oliveira
Segundo Luãn Andráde, analista de inovação do Sebrae Roraima, o incentivo a iniciativas como essa é estratégico para o desenvolvimento regional.
“O Sebrae tem trabalhado para apoiar soluções que conectem tecnologia, sustentabilidade e impacto social. São projetos que nascem a partir da realidade local e têm potencial de transformar a economia da região”, afirma o analista.
Esse trabalho contribuiu para que a startup fosse selecionada entre as 100 melhores do Prêmio Sebrae Startups 2025, reconhecimento que evidencia o potencial de impacto da solução desenvolvida em Roraima.
Com perspectivas de expansão para outros estados da região Norte, como Amazonas e Pará, e possibilidade de adaptação para a colheita de outras palmeiras, o Climbot simboliza um novo caminho para o extrativismo. No campo, a experiência mostra que tradição e inovação não são opostas, mas complementares e que preservar vidas também é uma forma de desenvolvimento.
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