O barro ganhou novos significados nas mãos de estudantes do Colégio de Aplicação que participaram de uma oficina de cerâmica no Espaço Cultural Jamaxim, em Boa Vista. A iniciativa levou as crianças a conhecer, na prática, o processo de produção de uma panela e aspectos da cultura Macuxi relacionados ao trabalho com a argila.
A atividade foi conduzida por Daya Roraima, responsável pelo espaço. Durante o encontro, ela orientou os participantes em cada etapa da produção, desde o manuseio da matéria-prima até a modelagem das peças.
A ação faz parte do projeto “Vovó Barro, Cerâmica e Ancestralidade na Escola”, desenvolvido pelo Espaço. A proposta é aproximar os estudantes dos saberes tradicionais relacionados à cerâmica e apresentar a importância dessa prática dentro da cultura Macuxi, é o que explica, Daya Roraima.
“Esse projeto que a gente tem, que é a Vovó Barro, Cerâmica e Ancestralidade na Escola, que é um projeto aqui do JAMAXIM, a gente reúne as escolas e os estudantes e a gente ensina um pouco o que é a Vovó Barro. Ela vem, ela advém do nosso povo Macuxi, aqui de Roraima, das nossas ceramistas”, afirmou a ministrante.
Tradição que atravessa gerações
A produção de peças de cerâmica está relacionada à transmissão de saberes do povo Macuxi. Técnicas de preparo e modelagem são preservadas e compartilhadas entre diferentes gerações, especialmente por meio do trabalho das mulheres ceramistas indígenas.
Dentro dessa tradição, o barro é apresentado como a “Vovó Barro”, uma referência ancestral que vai além da matéria-prima utilizada na produção das peças. O conceito também está ligado à memória, à identidade cultural e à valorização dos conhecimentos dos povos originários de Roraima.
É essa relação entre ancestralidade e cultura que o projeto busca apresentar às novas gerações por meio de experiências práticas no espaço cultural.
A participação da turma também foi resultado de um processo desenvolvido pela escola a partir do interesse das próprias crianças. Segundo a professora do Colégio de Aplicação, Renata Morgado, o contato com a história da Vovó Barro começou a partir de uma obra da literatura indígena.
“Essa ideia faz parte de todo um processo. Foi uma construção que nós idealizamos a partir do interesse das crianças, de uma história que eles ouviram. Essa história trouxe a Vovó Barro, uma literatura indígena da Vanessa Brandão, e nessa história contava um pouco da Vovó Barro. Partindo desse interesse, nós fomos aprofundando, proporcionando às crianças alguns momentos de oficina lá no ateliê. Depois, nós fizemos o processo de estudar um pouco sobre essas mulheres indígenas que fazem esse trabalho com o barro”, contou a professora.
Aprendizado na prática
Durante o encontro, os alunos puderam tocar, amassar e moldar o material, seguindo as orientações de Daya Roraima até chegar à produção das panelas.
Além de conhecer o resultado final, eles acompanharam as diferentes etapas de construção das peças e puderam experimentar uma técnica que exige cuidado e atenção durante a modelagem.
Para o estudante Gustavo Emanuel, a experiência foi uma oportunidade de descobrir uma nova maneira de trabalhar com o material e conseguir transformá-lo em uma peça.
“Foi muito legal fazer aquela experiência de mexer com o barro, amassar ele, ver como era feita a transformação para ele ficar do jeito que eu queria. Antes eu ia lá na minha casa, pegava o barro e tacava água, ficava tudo molengo, não dava para fazer nada. Aí aqui, como eu consegui realmente fazer uma panela, eu fiquei bem feliz”, relatou o estudante.
Cultura e educação
A iniciativa também reforça a proposta do Espaço Cultural Jamaxim de promover atividades que aproximem o público de saberes, práticas culturais e expressões artísticas.
Ao receber estudantes para experiências como essa, o espaço proporciona um contato direto com conhecimentos que fazem parte da história e da identidade dos povos originários de Roraima.
Na oficina, a produção das panelas foi além do fazer manual. O momento uniu educação, criatividade e valorização cultural, mostrando às crianças que preservar um conhecimento tradicional também significa transmiti-lo para as próximas gerações.
Para os participantes, a experiência ficou marcada não apenas pelas peças produzidas, mas pelo contato com uma prática cultural que carrega memória e ancestralidade.
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