A Universidade Federal de Roraima (UFRR) vai realizar, de 17 a 21 de agosto, a Semana de Intercâmbio de Ações para o Fortalecimento da Terra Indígena Yanomami: Educação, Gestão Territorial e Soberania Alimentar. A programação será realizada em Boa Vista e na região de Auaris, na Terra Indígena Yanomami e Ye’kwana (TIYY), município de Amajari.
A iniciativa reúne pesquisadores, gestores públicos, extensionistas, lideranças indígenas, docentes, técnicos e parceiros envolvidos em projetos desenvolvidos na TIYY. A proposta é promover o intercâmbio de experiências, o compartilhamento de conhecimentos e a construção de estratégias conjuntas voltadas ao fortalecimento dos povos Yanomami e Ye’kwana.
Entre os temas abordados estão educação, assistência técnica e extensão rural, gestão territorial, geoprocessamento, soberania alimentar e desenvolvimento sustentável. A programação é promovida no âmbito de projetos da UFRR desenvolvidos com apoio do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e Ministério da Educação (MEC).
Para o professor Daniel Rosar, coordenador dos projetos de Soberania Alimentar na Terra Indígena Yanomami, a programação é resultado de um trabalho desenvolvido pela UFRR desde 2023, que articula diferentes frentes de atuação no território.
ATER Indígena reúne instituições da Região Norte
De 17 a 19 de agosto, o Centro Amazônico de Fronteiras (CAF/UFRR) recebe, na Sala de Cinema, o 1º Encontro de ATER Indígena da Região Norte, que reunirá representantes de Instituições Federais de Ensino para discutir os desafios e as perspectivas da Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) voltada aos povos indígenas.
A programação inclui relatos de experiências de ATER indígena desenvolvidas na Região Norte, palestra do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, grupos de trabalho e plenária para socialização das propostas elaboradas pelos participantes.
O encontro também terá como um dos principais encaminhamentos a estruturação da Rede Norte de ATER Indígena, com discussões sobre sua forma de funcionamento, governança, coordenação e definição das próximas ações. A programação prevê ainda a elaboração e aprovação do documento “Diretrizes para a Política de Assistência Técnica e Extensão Rural Indígena da Região Norte, no âmbito das Instituições Federais de Ensino”.
Segundo Daniel Rosar, o encontro pretende aproveitar as experiências já desenvolvidas pelas instituições para contribuir com o aperfeiçoamento das políticas públicas voltadas à formação em ATER indígena. “A nossa ideia é definir diretrizes que orientem o Ministério do Desenvolvimento Agrário para pensar nessa parceria que eles têm desenvolvido com as instituições federais de ensino, os institutos federais e as universidades, para pensar como que essa política pode ser fortalecida, ampliada na Região Norte com a parceria”, afirma.
Atualmente, segundo o coordenador, cinco instituições da Região Norte mantêm parcerias com o MDA em projetos dessa natureza, dentre elas a UFRR. As experiências serão apresentadas durante o encontro e servirão de base para a construção das diretrizes para a região. A programação também prevê a discussão sobre a proposta de criação da Escola Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural.
Arte e cultura indígena
Além das atividades acadêmicas e institucionais, a Semana de Intercâmbio terá uma programação cultural aberta ao público, com ações que valorizam a produção artística indígena e a cultura regional.
Na noite do dia 17 de agosto, será realizada a solenidade de abertura oficial do Espaço Anike, com apresentação da Galeria a Céu Aberto, formada por murais produzidos por artistas indígenas no espaço da UFRR. Após a abertura, haverá uma visita guiada para apresentação das obras. “O espaço resulta de um trabalho que a gente iniciou em 2023, no desenvolvimento de um laboratório de Gestão Territorial Indígena dentro da UFRR, que é o Espaço Anike, que agora a gente abre também ao público”, explica Daniel Rosar.
A Galeria a Céu Aberto reúne obras dos artistas indígenas Anakok Taurepang, Avigail Reinosa, Danilo Ye’kwana, Geovan Wapichana, Isaias Miliano, Kaiwiono Wiz, Kaikuxi (Guilherme Pinho), Kalepi Sanöma, Mirla Saldanha, Nimeyana, Padilha e Ricks Graffiti, com curadoria de Daya Roraima e Dones Saunuru, que também deixaram suas obras no Espaço Anike. O conjunto de trabalhos evidencia a diversidade étnica e cultural de Roraima, reunindo artistas dos povos Sanöma, Ye’kwana, Macuxi, Wapichana, Warao, Taurepang e Patamona, e transformando o espaço em um lugar de valorização da produção artística e dos saberes indígenas.
A programação cultural da noite inclui ainda o espetáculo “Gotas de Saberes”, da Companhia Arteatro, que valoriza, por meio das artes cênicas, a diversidade de conhecimentos, histórias e tradições dos povos indígenas de Roraima. A apresentação será seguida de uma Roda de Parixara, manifestação cultural tradicional que reúne canto, dança e celebração coletiva, fortalecendo os vínculos comunitários e a valorização dos saberes ancestrais.
No dia 18 de agosto, a programação cultural continua com a abertura da galeria fechada do Espaço Anike, que receberá uma exposição do artista indígena Dones Saunuru. A nova galeria será um espaço para difusão da produção artística indígena, funcionando como espaço de valorização das diferentes expressões culturais dos povos de Roraima.
A noite será encerrada com um show da Banda Kruviana, formada por alunos indígenas da UFRR e ligada ao Insikiran Anna Eserenka, programa de extensão da Universidade Federal de Roraima voltado à prática e à valorização da cultura e da resistência dos povos indígenas da Amazônia.
A programação cultural amplia a proposta da Semana de Intercâmbio ao criar espaços de encontro entre conhecimento acadêmico, saberes tradicionais e produção artística indígena.
Atividades na Terra Indígena Yanomami
Nos dias 20 e 21 de agosto, a programação segue para a região de Auaris, na Terra Indígena Yanomami, onde os participantes poderão conhecer de perto ações desenvolvidas pelos projetos da UFRR junto às comunidades.
Entre as atividades previstas estão a cerimônia de conclusão das turmas da Educação de Jovens e Adultos (EJA Sanöma) nos anos iniciais do Ensino Fundamental, a entrega da proposta de cursos de formação técnica e especialização Ye’kwana, apresentações de atividades produtivas desenvolvidas pelas comunidades e demonstrações de ações de gestão territorial implementadas na região.
Segundo a professora Adriana Gomes Santos, coordenadora do projeto de EJA na Terra Indígena Yanomami, a formatura representa uma etapa importante de um processo de formação que atende aos povos Yanomami e Sanöma. “Vamos realizar a formatura do ensino fundamental, anos iniciais, do primeiro ao quinto ano”, explica. Ao todo, 70 estudantes matriculados na EJA concluíram essa etapa, que segue até a conclusão do Ensino Fundamental, no 9º ano.
Para Adriana, a iniciativa representa uma experiência inédita de educação básica territorializada na região. “É o primeiro processo de formação que eles têm territorializado na educação básica e ofertado pela Universidade Federal através dessa parceria Colégio de Aplicação e Insikiran que atuam nesse território”, destaca.
Durante a programação em Auaris também será entregue a proposta de Projeto Pedagógico de Curso (PPC) de formação técnica para os Ye’kwana, voltada à formação de Agentes Territoriais Indígenas. Segundo Adriana, a proposta foi construída a partir de um processo de discussão envolvendo as comunidades, universidades e professores, até a definição de uma grade curricular que contemple os aspectos culturais, sociais e organizativos do povo Ye’kwana.
“Essa grade curricular vem a atender a uma necessidade que eles trazem, que é de incluir os saberes tradicionais dentro do processo de escolarização. É um projeto muito importante para os Ye’kwana, que vem há muito tempo sendo discutido pelas comunidades e que agora já está concluído”, afirma.
A programação educacional inclui ainda a proposta de uma especialização voltada à formação de professores Ye’kwana para atuação no futuro curso de ensino médio técnico. As ações estão articuladas a outras iniciativas de soberania alimentar e às atividades produtivas desenvolvidas nas comunidades.
A etapa em Auaris representa também um momento de aproximação entre os participantes da Semana e as experiências desenvolvidas diretamente no território, permitindo o intercâmbio de conhecimentos e o acompanhamento das ações realizadas em parceria com as comunidades indígenas. “A educação nunca é rápida, ela é um processo longo, demorado, mas que a gente agora consegue atingir uma etapa”, ressalta Adriana.
A Semana de Intercâmbio busca, assim, fortalecer redes de cooperação entre instituições, comunidades e diferentes áreas de conhecimento, contribuindo para a construção de novas iniciativas em benefício dos povos indígenas da Amazônia. A programação reúne pesquisadores, gestores públicos, extensionistas, lideranças indígenas, docentes, técnicos e parceiros para o compartilhamento de experiências e a construção de estratégias conjuntas.
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